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Workshop apresenta tecnologias digitais para controle de vetores
Evento teve a presença da pesquisadora norte-americana Renée Codsi, que lidera a equipe de conteúdo científico da EarthGames, na Universidade de Washington (EUA)
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A Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS) da Fiocruz abriu, na quarta-feira (22/8), o Workshop Internacional em Tecnologias Digitais Móveis para Controle e Monitoramento de Reservatórios e Vetores de Agentes Infecciosos. O evento teve a presença da pesquisadora americana Renée Codsi, que lidera a equipe de conteúdo científico da EarthGames, na Universidade de Washington (EUA), no desenvolvimento de aplicativos móveis para a saúde. O workshop contou também, na manhã do primeiro dia, com a apresentação de grupos de pesquisa da Fiocruz, que compartilharam experiências em tecnologias móveis para o controle e monitoramento de reservatórios e vetores de agentes infecciosos. À tarde, houve palestras sobre as tecnologias digitais ministradas por Renée Codsi e pesquisadores da Fundação. O evento coordenado pela VPAAPS prosseguiu na quinta-feira (23/8), com uma oficina ministrada pela estudiosa americana sobre o uso do aplicativo GO Mosquito para os pesquisadores e a comunidade (líderes comunitários e professores de escolas municipais e estaduais).
A mesa de abertura do evento teve as presenças do diretor do Instituto Oswaldo (IOC/Fiocruz), José Paulo Gagliardi Leite, da assessora de Promoção da Saúde da VPAAPS, Luciana Garzoni, do assessor de Ambiente da VPAAPS e da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030, Guilherme Franco Netto, do coordenador de Comunicação do Centro de Relações Internacionais em Saúde (Cris/Fiocruz), Clementino Fraga Neto, e do assessor da Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB/Fiocruz) Wim Degrave. Luciana Garzoni disse que um dos objetivos do workshop é induzir possibilidades de parceria e integração em tecnologias digitais, entre pesquisadores da Fiocruz e com outras instituições, como Institute for Global Environmental Strategies. Após breves intervenções de cada um dos participantes da mesa começaram as apresentações.
A primeira a apresentar foi Renée Codsi, integrante da equipe do Institute for Global Environmental Strategies, que atua em parceria com a Nasa no projeto Go Mosquito e visa o monitoramento de vetores pelas comunidades, em parceria com pesquisadores por meio de tecnologias móveis, para formar uma ciência cidadã. Ela disse que epidemias recentes de malária, zika, febre amarela e chicungunha aumentaram a necessidade de compreender a distribuição sazonal e geográfica de mosquitos Anopheles, Aedes aegypti e Aedes Albopictus. “A cada ano são mais de 2,7 milhões de mortes em todo o mundo. Por isso é tão importante fazermos o controle dos criadouros de mosquitos. Também precisamos conhecer os tipos de criadouros. É fundamental criar uma comunidade de aprendizado para ampliarmos a colaboração no combate e prevenção às doenças transmitidas por mosquitos”, afirmou Renée.
A pesquisadora lembrou que o monitoramento dos habitats de reprodução de mosquitos é importante, o que a levou a abordar os bancos de imagens de satélite para modelagem de áreas de alto risco de doenças transmitidas por mosquitos, que evidentemente não podem ser vistos do espaço – mas os ambientes em que vivem, quentes e úmidos, são perfeitamente identificáveis. Foi com esse intuito que a Nasa criou o aplicativo Mosquito Habitat Maper na plataforma Global Learning and Observations to Benefitis Environment (Globe Observer). O aplicativo orienta o usuário a identificar e eliminar locais de reprodução de mosquitos. O usuário também ajuda estudos que buscam descobrir se há espécies de mosquitos que estão se tornando aptas a transmitir mais doenças. “Modelos climáticos preveem um aquecimento global médio na faixa de 2 a 4 graus Celsius até 2100. Esse aumento da temperatura pode disseminar doenças transmitidas por insetos em áreas onde esses relatos são raros”, afirmou Renée. Os dados coletados pelo projeto propiciam informações sobre a taxa de reprodução do mosquito, a quantidade de ovos que as fêmeas põem, a vida útil dos insetos e outros.
Para Renée, as mudanças climáticas serão “uma festa para os mosquitos e o caos para os seres humanos”. Segundo ela, previsões matemáticas apontam que as alterações no clima do planeta podem aumentar a distribuição de doenças transmitidas por vetores. “Até 2085, cerca de 50% da população mundial viverá em áreas de alto risco de transmissão de doenças como dengue e malária. Em países onde existe uma alta densidade de insetos em terras baixas, se o continente for quente, os mosquitos vão subir e se distribuir por terras originalmente frias”, alertou ela.
Em seguida, a pesquisadora mostrou como se utiliza o aplicativo Globe Observer Mosquito Habitat Mapper, que coleta dados. “Esses dados são úteis para o desenvolvimento de modelos computacionais realistas baseados em informações de satélite. No entanto, apesar das informações de satélites é necessário, além dos ‘olhos no céu’, de ‘botas no chão’, ou seja, pessoas que estejam de olho nos mosquitos existentes nos locais em que residem. Por isso o engajamento das comunidades é tão fundamental, dentro do conceito de ‘ciência cidadã’ [que entende que qualquer pessoa pode contribuir com a ciência]. Assim, as pessoas se envolvem na coleta de dados e se tornam cientistas cidadãos e agentes de mudança, contribuindo para reduzir a exposição das comunidades a doenças transmitidas por mosquitos”.
Em seguida à apresentação de Renée foi a vez da bióloga Márcia Chame, coordenadora do Centro de Informação em Saúde Silvestre e do Programa Institucional Biodiversidade & Saúde, que discorreu sobre o aplicativo Siss-Geo, desenvolvido pelo Sistema de Informação em Saúde Silvestre (Siss/Fiocruz). O aplicativo é uma ferramenta útil no enfrentamento a doenças silvestres e vem recebendo prêmios. Ele estimula a participação da sociedade no monitoramento de epizootias – eventos de doenças em animais não humanos, análogo ao conceito de epidemia em pessoas. O aplicativo também foi elaborado dentro da perspectiva de “ciência cidadã”.
De acordo com Marcia, quando uma pessoa se depara com um animal silvestre, reporta no aplicativo e informa sobre o bicho observado, suas características, localização e ambiente e envia fotos. O aplicativo é gratuito, muito leve – tem menos de 3 MB – e simples de usar, possibilitando vasta implementação. Após o registro, os dados são disponibilizados em um banco de dados. O projeto resulta em modelos de alerta precoce e previsão de emergência de zoonoses antes que doenças acometam as pessoas e outros animais e permite ainda a avaliação de impactos sob espécies ameaçadas. Em 2017, o trabalho foi o vencedor da categoria Órgãos Públicos do Prêmio Nacional de Biodiversidade, promovido pelo Ministério do Meio Ambiente. Também no ano passado o aplicativo foi certificado como Tecnologia Social pela Fundação Banco do Brasil. E o Siss-Geo já gerou um filhote, o Detetive Botânico, que leva os usuários a procurar por plantas raras. Igualmente dentro da perspectiva de ciência cidadã, o aplicativo é uma parceria da Fiocruz com o Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
A apresentação seguinte foi de Gabriel Sylvestre, líder de Pesquisa e Desenvolvimento do projeto Eliminar a Dengue: Desafio Brasil. Ele abordou essa iniciativa internacional, sem fins lucrativos, que tem por objetivo oferecer uma alternativa sustentável e de baixo custo às autoridades de saúde das áreas afetadas pela dengue, zika e chikungunya, sem qualquer gasto para a população. O projeto propõe um método inovador capaz de reduzir a transmissão dos vírus das doenças citadas por meio da liberação de mosquitos Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia, promovendo uma substituição gradual da população de mosquitos em uma determinada área. Em agosto de 2017 teve início a liberação de mosquitos Aedes aegypti com Wolbachia, em larga escala na Ilha do Governador, um bairro do Rio de Janeiro.
Concluindo as intervenções da manhã de quarta-feira, a pesquisadora Nadia Rodrigues, da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), apresentou um aplicativo, ainda em desenvolvimento, que traça um mapa do Aedes ao detectar a distribuição de arboviroses por meio de informações georreferenciadas. O projeto-piloto, em fase inicial, está sendo implantado nas comunidades vizinhas à Fiocruz, no bairro de Manguinhos.
Ricardo Valverde
Agência Fiocruz de Notícias